"Às vezes, você perde vários poemas, porque sente uma frase, sente algo murmurado no seu espírito e não presta atenção porque está ocupado com os ruídos da vida. É necessário apurar o seu ouvido, ter a humildade de anotar a coisa mesmo quando ela não é muito boa. Pode, de repente, um texto meio nebuloso, meio esquisito, meio simplório demais, dar raiz a um poema posteriormente interessante."

--------------------------------------Affonso Romano de Sant'anna

domingo, 6 de dezembro de 2009

Os antenados vão pelo cano








quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Catarina

Na verdade, essa história provavelmente aconteceu há mais de vinte anos e realmente não me recordo de onde, nem quando a ouvi. Vagamente lembro do andar da senhora protagonista desse caso que habita o imaginário e também a história deste bairro pacato. Pode ser fruto da imaginação, sabe, essas coisas da infância que, quando adulto, você não lembra se foi realmente verdade ou imaginação.A imagem da velha subindo as escadas, no entanto, é tão clara na minha mente. É daquelas histórias que ficam esquecidas durante muito tempo e, de repente, num cheiro, num som, numa visão, tudo se iluminar. A velha senhora corcunda e excessivamente vestida que passara há pouco pelas escadas subindo a rua me fez clarear a mente...

As crianças brincavam em um típico bairro residencial durante todas as tardes e noites. Era uma rua tranqüila. Robinho se escondia nos galhos de uma árvore enquanto aproveitava e comia os suculentos jamelões maduros. E tacava caroço no velho Seu Preá e em quem passava por perto. Viviane, uma moça bastante exibida, jogava bola com os meninos e ela era a dona da bola. Toda vez os meninos largavam o futebol, era só virem no céu uma cafifa avoada, impotente, ao sabor do vento e caindo sempre em lugar que, o menos pior era furar o pé de um com vergalhão. E Viviane? Corria até mais rápido que os moleques. A moça tinha dois irmãos: Cabeça e Porroca, dois garotinhos que estavam escondidos, um atrás do muro de casa e outro no mato. Cabeça, Porroca e Robinho brincavam de pique-esconde com Ana Panelinha, que a essa altura já estava em casa, gritada pela mãe: Aninha, entra que eu não quero você misturada com menino. Ana fazia uma carinha quando ouvia: “misturada com menino”. Imaginava a idéia e gostava. Netinho chegava da escola, nem trocava de roupa, já estava correndo atrás de pião, folhão e pitetinho avoados.

Catarina entrou na rua já era de tardinha. Nunca se via ao certo de onde ela vinha, mas sempre subia as escadas do beco e também ninguém sabia pra onde ela ia, mas havia história. Robinho não perdeu tempo. Nem bem a velha se aproximou do pé de jamelão, que ficava próximo à entrada do beco e o pestinha tacou-lhe um jamelão inteiro, pra sujar mesmo, e gritou: “Catarina Peito-de-Pano!!”. Ao ouvir isso, Porroca, do mato mesmo gritou: “Catarina Peito-de-Pano!!”. Catarina passou, subiu o beco. Sumiu.

Viviane mal chegava, já tinha dois times montados e três de fora. Viviane chegou já no time de dentro, ouvindo reclamações. “Galinha de fora não dá peruada”, gritava. Ela era a dona da bola. Netinho com suas cafifas foi o primeiro a ver Catarina surgindo na rua e já veio gritando: “Catarina Peito-de-Pano!!”. Viviane largou a bola, escondeu-se atrás de um fusquinha e entoou a vinheta já conhecida de todos. Catarina passou. Nunca se via ao certo de onde ela vinha, mas sempre subia as escadas do beco e também ninguém sabia pra onde ela ia, mas havia história.

A mãe de Ana Panelinha ria e a filha perguntava porque aquela velha senhora usava tanta roupa e se ela tinha mesmo os peitos feitos de pano. A mãe disfarçava e dizia: “Aquela velha é maluca, nunca vi usar tanta roupa no verão. Dá idéia não”. Ana Panelinha estava procurando Robinho, Cabeça e Porroca, mas só encontrou Catarina Peito-de-Pano subindo a rua. Já gritou: “Catarina Peito-de-Pano!!”. Cabeça saiu de trás do muro de casa e musicalmente gritou o hit da molecada. Panelinha aproveitou e, no mesmo ritmo gritou: “um dois três pique boia Cabeça!!”. Cabeça gritou que tinha pedido licença. Porroca aprovetou da situação, saiu do mato e: “um dois três pique boia Wallace. Wallace era o nome de verdade de Porroca.

Netinho estava com um folhão no alto e os moleques mais prestavam atenção na tora do que no jogo. Gilsinho, que era primo de Robinho, aproveitava e esbarrava em Viviane. Ela gostava. Mas ela dava sopapo na cara dele. Os moleques gostavam. A mãe de Ana panelinha via tudo e mandava a garota entrar: “Essa Viviane não é flor que se cheire não. Se eu ver você com essa garota, Ana Cristina (que era o nome de verdade de Ana Panelinha), eu te dou uma coça de vara que você não esquece”. Gilsinho esbarrou em Viviane na hora em que Catarina surgiu na rua. Viviane gritou, dando tapas no garoto. O moleque correu de Viviane e esbarrou em Catarina. Saiu correndo e gritou. Catarina passou. Sempre subia as escadas do beco e ninguém sabia pra onde ela ia, mas havia história.

Catarina entrou na rua e não tinha ninguém brincando. Viviane estava passando cerol em linha de cafifa no quintal de casa e viu a velha. Gritou. Ana Panelinha, que estava procurando os meninos em outro lugar, em vez de gritar também, resolveu que ia seguir Catarina Peito-de-Pano. Catarina subiu as escadas do beco, virou numa rua e depois em outra. Ana Panelinha atrás. Entrou por um portão velho, desceu umas escadas e saiu em uma pequena vila. Ana Panelinha atrás. Catarina entrou em um casebre e Ana Panelinha espiava pela janela. Catarina tirou o casaco de lã e as calças que vestia e jogou na cama. Para espanto de Ana, por debaixo da roupa havia ainda outro casaco e outra calça. Da cabeça tirou o lenço que a cobria e do pescoço o cachecol. Havia por debaixo outro lenço e outro cachecol. Ana arregalou os olhos. Catarina tirou o par de luvas e de meias e por baixo havia mais um par de luvas e de meias. Catarina retirou de si várias camadas de pano até que, quando estava levinha levinha, com uma quantidade de pano que não permitia nem que ela continuasse em pé de tão leve, desabou a dormir na cama. Ana Panelinha deu um berro e correu em disparada. Chegou na rua gritando. Todos os moleques, que já estavam na rua, riram muito de Ana Panelinha, que estava fantasiada de Catarina Peito-de-Pano. Robinho, que estava no pé de jamelão, tacou um monte na menina. Viviane, que estava no time de dentro, deu-lhe uma bolada na cabeça. Chegando em casa, sua mãe caçoou, perguntando se o carnaval já tinha chegado. Ana foi para o quarto assustada e tirou de si o cacaco de lã, as calças, o lenço, o cachecol, as luvas e as meias e por debaixo havia outro casaco, outra calça, outro lenço, outro cachecol, outras luvas e outras meias. Ana Panelinha foi tirando todo pano que aparecia por debaixo das roupas, desesperadamente, incontrolavelmente até ficar levinha, mas nem assim parou. Já estava fininha e a última coisa que pode ver antes de arrancar seus olhinhos de botão de camisa, foi a imagem de Catarina que espiava pela janela.


Gabriel da Matta

sábado, 6 de setembro de 2008

Possível introdução ao livro "O gato de Cheshire"

“Gatinho de Cheshire”, começou, bem timidamente, pois não tinha certeza se ele gostaria de ser chamado assim: entretanto ele apenas sorriu um pouco mais. “Acho que ele gostou”, pensou Alice, e continuou. “O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?”
“Isso depende muito de para onde você quer ir”, respondeu o Gato.
“Não me importo muito para onde...”, retrucou Alice.
“Então não importa o caminho que você escolha”, disse o Gato.

Mas de que ri essa lua?
Pode algo tão grandioso ficar aí de cima me humilhando com essa boca gigante a cada vez que falho na vida? Vê se pode ter que olhar para o céu para pedir misericórdia e dar de cara com esse sarcasmo todo. Ora, lua, vê se se mingue, não vê que não há porque rir? Se me dizes que é sincero esse sorriso como posso acreditar se nem pra me dizeres isso o desfaz da sua boca?

Não me venha dizer que é por puro otimismo que não caio nessa. Já acompanhaste toda a história do mundo e a minha também, exceto quando somes, de vergonha talvez. E se já sabe de tudo, de que ri? Não é sarcasmo? Ora, dissimulada, nem de rabo de olho posso observar o infinito que me ficas aí com essa bocona aberta, que me segue e vezenquando se esconde em uma ou outra nuvem que dorme. Não venha com essa que sei que está aí...só surges nessas noites que mais me dano, que mais erro... depois vem me falar de ciclos lunares, coisas da natureza...nãnãninãnão. Queres é me apontar e dizer: lá vai o errante errar novamente... estou aqui te ouvindo dizer essas coisas...disseram que era perda de senso ouvir estrelas. Você deve ouví-las, não? conversar com elas? não sabe que elas precisam ser amadas? mas você só faz ofuscá-las...eu ouço estrelas, elas me contam de ti, matreira...acho que são suas as armadilhas que me lascam... estou errado?
Ora, (direis) fico apenas aqui, rindo, fazendo a felicidade dos músicos, dos poetas, dos pescadores, dos astrônomos...vens me responsabilizar pelos males de sua vida? que culpa tenho se fico tão quieta aqui no meu cantinho?
Mas ah, vem me dizer isto com esse sorriso safado no rosto? e quer que eu acredite?
Ora, direi, vá catar estrelas!

domingo, 17 de agosto de 2008

Crianças

A criança ia nascer,
como o presente milagre da vida e a mãe, embora solteira, sorria o sonho realizado, a enfermeira sorria, a criança chorava sorria, as sinfonias tocavam, os passarinhos vinham à janela cantarolar, a saúde, e o futuro do milagre, o pequeno bebê nascido a partir do primitivo do Homem.

A criança ia nascer,
números dobrados, presente, milagre, e a vida da mãe, pois solitária, realizava o ato da deixa, como chorava e sorria quando as sinfonias tocavam, os urubus atentavam o futuro e o milagre, o pequeno bebê em contato com o primitivo do Homem.

A criança ia nascer,
como o passado de águas e fumaças, o alívio de menos um, embora mais nenhum, e a desconfiança da origem masculina ficara para o ato da deixa, quando as sinfonias estatelariam na face virgem do ouvintes as placas sanguíneas e placenta

A criança ia nascer,
como? deslocado, tresloucado o pai que houvera desá, a mãe que devera aos céus o porcento que nascia deslocara o centro de sua vida quase não havida para o que quase não havia nascido e mesmo nato quase não há em matéria de tão ínfima presença no mundo sem permissões, sem calor que viria de onde, se deixado em panos na friagem não da natureza?

A criança ia fazer nascer,
de si, o produto do efêmero prazer de quem quer que tivesse sido tirado naquele dia narcóticos, quentes, tapas, e doces, a criança que como toda criança quereria e foi, ao ultimo dos seus suspiros dar-se em fusão a um produto descartável que se encontrara por acaso naquele momento pois perdera no chão em que tropeçou a ponta do beck derradeiro.

A criança ia enfim nascer,
como toda a família esperava e as paredes já estavam pintadas o enxoval completo as vidas iluminadas, as fraudas compradas e as lágrimas de todas as corujas prestes a inundarem o salão a espera do pedaço de ser humano que logo logo iria correr por esse quintal e comer dessas goiabas, sujo de terra e sangrando de vergalhão.

As crianças iam, enfim nascer,
quando um decreto proibiu que qualquer manifestação humana pairasse sobre a terra e então os crentes e os credores subiram aos céus a refugiarem-se daquele mundo que multiplicava bebês inocentes, enchendo e transbordando a mãe-terra que, dantes piedosa, não suportou e abortou-nos a todos.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Congratulations!

Sentia frio. Tentava me controlar, mas não conseguia de maneira alguma deixar de tremer, e tremendo quase não podia pensar em nada, nem mesmo em andar. Na verdade sou um guerreiro, pois chegara até ali, uma longa jornada de pés trocados para mim. Agora era a descida.

Meu Deus, era só olhar para baixo e me imaginar rolando por todos os degraus de cimento até a rua lá embaixo. Pensei em deitar-me ali mesmo até conseguir me recuperar. Mas o pouco de consciência que ainda me restava não deixou que eu caísse naquele chão, onde duas horas depois os homens e mulheres sensatos iriam passar. Respiro, cuspo, fecho os olhos e arregalo-os. Mão no poste, mão no muro de chapisco, mão no portão, mão na bananeira, mão na sarjeta, mão na calçada. Pare! Sento-me, respiro. Mão na cabeça, mão no joelho que sangra. Lágrimas. vida, morte, hã? Levanto-me, vagarosamente, lentamente, cuidadosamente, falho e retomo a tentativa e enfim homo erectus. Mãos no muro de chapiscos, pés descendo um por um, degrau por degrau. O frio aumenta e um uivo de cachorro me arrepia todos os pêlos do corpo. Agora até minhas pernas bambam. Olho para os lados, à direita um campo inteiro de mato balançando ao vento. Fecho os olhos e reso aquelas coisas de igreja. uma sombra, meu Deus, um fantasma!!! socorro!!! onde está? agora nada treme, meus passos nunca foram tão ligeiros, papa-léguas que me aguarde! Pé no pé, no cadarço, na calça, testa no chão, sangue e agora, meu pai, só me falta um vampiro aparecer. Morcegos se agitam na árvore tenebrosa que eu nunca tinha reparado. estar aqui. Outro uivo. Só me faltava um lobisomem. Mas o uivo vinha de mim mesmo. Serei eu o lobisomem? que medo. Fecho e arregalo os olhos, mãos espalmadas no muro de chapiscos. De pé, lágrimas, sangue.

Meio caminho havia sido percorrido, um quarto rolando degraus. Um vulto sobe, um serial killer. Preparo o punho. grunho, lato, uivo. O vulto se volta, correndo de medo. Sorrio. Gargalho. Uma luz se acende. Agacho-me. A luz se apaga. Mãos no muro de chapiscos, descer, descer, descer, descer. Parar, respirar. Estalar os dedos, coçar a nuca, um breve arroto para não chamar atenção. Um corredor me surge à frente. Filmes de terror, corredor... não, fantasmas, correntes, zumbis. Coração dispara, o que farei? Ligeirinho, passo passo passo passo. Mais dois degraus e fim da fase, congratulations! ou finish him: fatality!

O corpo já não agüentava, tombou. Rastejei junto a um rato e duas baratas, um degrau a mais, um degrau a mais. O fim do beco era o início de um bueiro. Seres ali parecem festejar, cantam, correm, brincam, passam, passeiam. Sobre mim, inclusive. Simpatizei. Era meio escondido, eu poderia cair ali sem que ninguém percebesse, dormir até me recuperar. "Chega pra lá, vira-latas de bosta, dá um pedaço desse jornal". Cachorro fedorento!

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Violator

Quando entrei naquela casa reparei que uma taça quebrada deixara no chão de tapete persa rastros de vinho já secos, violentos, me levando a uma dedução caótica da vida: Ela não estava mais ali. E ainda inocente de esperança fui procurá-la em todos os cômodos e ainda gritei pedindo que parasse com a brincadeira, que não havia mais graça e ainda fingi ir embora esperando ela surgir de algum lugar pregando uma das suas famosas peças. Mas não havia graça. E quando estivesse porta adentro, Policiais da Verdade anotavam e anotavam...não cabia ali trocar sequer olhares com eles. De que adiantaria a verdade legal e real dessas coisas? Eu via aquele vinho, eu via aquela taça, eu via aquele tapete e eles eram sim vinho, taça e tapete. Calei-me.


Pôr os anjos e os demônios para jogar:

Não sou o mais infeliz dos homens, não repudio qualquer ação em prol do bem estar do corpo, mesmo o corpo tendo que estar longe pra estar bem. Porém não estávamos numa peça de teatro. Não havia ali um deus máquina para mudar a história. Deus Máquina? Deus Pessoa? Deus é Deus, gente é gente? Onde estava Shakespeare para autografar-me os louros de mais uma bela tragédia? Ela não era uma atriz interpretando Hedda, muito menos eu Édipo, para poder me cegar diante de tamanha desordem que meus olhos viam. Certamente em um intervalo de tempo imperceptível inclusive à velocidade da luz eu me calara, e me calara numa imensidão incrível. Eu, no deserto, sem água, sem miragens, esperando pela noite sem ao menos poder me desconsiderar a vida. Eu estava perdido em um não-espaço infinito, sem poder mover-me, sem poder enxergar.


Aproveitar o silêncio, olhar. Aqui em minhas armas, meus escudos, estarei livre de qualquer presença de quereres, desejares, precisares. Aproveitar o que não é preciso? Olhar. O meu olhar? Aproveitá-lo ao máximo no milésimo-milímetro de silêncio... e ser a Máquina que move a desordem para a ordem, que desfaz e refaz cenas até a verdade intrinsecamente ideal e perfeita se tornar o ato final. Mas era apenas um intervalo de tempo em silêncio, em mim... O intervalo de tempo cessara e toda a força que saíra de meus pulmões foram tão espontâneas que eu mesmo chegara a me assustar com o grito. Onde estará ela? Me fugiu em corpo e alma. Olho para o céu, olho para o espelho assustadoramente. Só vejo a mim. Olho para o teto, nada vejo. A casa fora violada e minha Violeta se há perdida. A rua é o mundo e o mundo está em meus olhos. A porta aberta... Desde aquele dia, quando entrei por aquela porta, não mais procuro entradas ou saídas. Desde aquele dia não procuro almas. Desde aquele dia só passo os dias olhando para janelas, espelhos ou mesmo para um animal qualquer que me afague na rua, mas só vejo a mim mesmo, minha desalma, meus olhos rasos.


Pôr os anjos e os demônios para jogar:

Ainda sou um homem, o mesmo homem inviolado, frio de muitas geleiras escaladas, seco como o vinho daquele chão. Mas não sou o mais infeliz dos homens. Estou sozinho neste mundo, nesse imenso fim, no deserto proscrito nas ruas sujas do mundo. Mas estar é condição do ser. Não sou o mais infeliz dos homens, mas me dizem: coitado. Tão desencontrado na vida. Anda por esses becos a perguntar a qualquer gato ou caco de vidro onde fora parar aquela que procurara tão inocentemente ao entrar por aquela porta. Não sou o mais infeliz dos homens pois já não tenho alma. E sem alma não é possível ser infeliz. Feliz também não, decerto. Mas sem nada ao menos o não-sentir me neutraliza.


Estou a mercê de meu corpo, que não sente a falta de membros que o tempo fez questão de me tirar, que não sente as pontadas que sentiria ao nada ver quando um espelho só mostra a face horrenda de uma descrição baudeleriana só bela porque grotesca. Sou um ilustre, servindo de modelo aos estudantes de arte. Mal sabem que na tarde quando entrei naquela casa por aquela porta e vi aquela taça com vinho que não era vinho espatifada no tapete persa que não era persa, muito menos tapete, ali mesmo entre o segundo que meus olhos tocaram o mais belo grotesco e o momento em que o grito silenciou o mundo, a Arte não resistiu. Um tapete que não era tapete e não era tapete, meu Deus! Uma taça que mais me refletia e que mais me imitava. Aquilo era arte, mas a arte se prendeu àquela taça, onde me perdi.


Hoje isso que fotografam com sorrisos nos olhos não passa de corpo, e o que é um corpo? É a essência ou o excesso que deixa o homem não ser o mais infeliz dos homens e muito menos o mais feliz. A carcaça só me faz existir. Ser? Não sei. Minha carcaça fascina o mundo. E agora que todos dizem: coitado! eu entrego-lhes violetas cor de vinho, mas com uma pétala a menos, violada pelo meu corpo parco, amassada pelos restos de meus membros, entregue quase sem cores, pois de que adiantam cores, se impregno tudo que me cerca e se é na imatéria que me retratam os homens em qualquer grafite, em qualquer aquarela?


sábado, 12 de abril de 2008

Palavras

Já dizia Roland Barthes que a palavra é fascista. Ela é única, insubstituível, irrevogável. O que se disse está dito e não há como desdizer. O tempo não volta, e mesmo que voltasse não impediria que as mesmas palavras fossem repetidas. Somos, pois, escravos da palavra. A palavra brota: é difícil calar. Palavras são recíprocas, são ação e reação, são espontaneidade. Palavras mesmo que pensadas, repensadas, e analisadas em todos os seus sentidos, fogem a toda situação e matam o ouvinte e matam o enunciador. As palavras são a ditadura do próprio ser. Como viver sem palavras? Como não pronunciá-las? As palavras regem o mundo humano. Impossível ser imparcial frente à declaração que mudou o mundo e que muda o mundo a todo momento. Palavras são tragédias. Sempre.


As ações são a primeira tragédia da vida, as palavras são a segunda. Sem dúvida, são as palavras a pior tragédia. As palavras são impiedosas .

Oscar Wild

O que é que há, pois, num nome? Aquilo a que chamamos rosa, mesmo com outro nome, cheiraria igualmente bem
William Shakespeare

Se soubéssemos quantas e quantas vezes as nossas palavras são mal interpretadas, haveria muito mais silêncio neste mundo
Oscar Wild

Nenhum de nós sabe o que existe e o que não existe. Vivemos de palavras. Vamos até à cova com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos. Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas. São as palavras que nos contêm, são as palavras que nos conduzem. Mas há momentos em que cada um redobra de proporções, há momentos em que a vida se me afigura iluminada por outra claridade. Há momentos em que cada um grita: - Eu não vivi! eu não vivi! eu não vivi! - Há momentos em que deparamos com outra figura maior, que nos mete medo. A vida é só isto?
Raul Brandão

Toda a palavra pronunciada suscita o seu sentido contrário.
Goethe


Suave Me Mata (Killing me softly) (Omara Portuondo)
Charles Fox e Norman Gimbel

Son tantas las cosas que dice
Canta mi historia essa voz
Suave me mata su ritmo e sus acordes
Yo he visto toda mi vida
Pasando por sus palabras, su emoción

Ohí que alguien cantaba
Una buena canción
Era um muchacho dulce
Un angel dije yo

Que estilo aquel
que suerte
tuve en conocerle

Toca mi piel cuando dice
Ondas palabras de amor
Suave me mata su ritmo
Y a encontrarle ya nada
Parezco extraño
me hizo sentir de nuevo la pasión

Pedazos de mi vida
marraba su canción
?De donde me conoce?
Qué estranho pense yo
Cantaba mi esperanza y um poco mi dolor

Suave me mata este canto
Sostiene mi vida essa voz
Suave me mata este ritmo
essa mirada sonrisa cambia mi vida
cantando com toda alma su canción

Atrás quedan temores
Toda la soledad
Un nuevo solo inunda
Intera la ciudad

La conoci cantando con su canción y encanto
Uma emoción increible
Canta mi vida esta voz
Canción que me está matando
Y me despierta su ritmo tan dulces sueños dormidos
Nuevos camiños de mi amor

Palavras
Roberto e Erasmo carlos

Não tente me enganar
Vejo em seu olhar que já não existe
Aquele mesmo amor que nunca esperou
Acabar tão triste.

Não tente me dizer palavras que eu
Já não acredito
Eu posso compreender o que restou de um amor
Que foi tão bonito.

Eu fiz daquele amor o meu sonho maior
Minha razão de tudo
Foi pouco o que restou
De tanto que existiu
Recordações e nada mais.

Não, não vá me dizer palavras que venham
Me fazer chorar depois
Eu sei que vou viver
Por muito tempo ainda
Das lembranças de nós dois.



More Than Words (Extreme)

Gary Cherone e Nuno Bettencourt


Saying 'I Love you' is not the words
I want to hear from you
It's not that I want you
Not to say But if you only knew
How easy it would be to show me how you feel
More than words
Is all you have to do to make it real
Then you wouldn't have to say
That you love me cause I'd already know

What would you do if my heart was torn in two

More than words to show you feel
That your love for me is real

What would you say if I took those words away

Then you couldn't make things new
Just by saying I love you

Now that I've tried to
Talk to you and make you understand
All you have to do is
Close your eyes and just reach out your hands

And touch me hold me close
Don't ever let me go
More than words
Is all I ever needed you to show
Then you wouldn't have to say
That you love me cause I'd already know

What would you do if my heart was torn in two

More than words
To show you feel
That your love for me is real

What would you say if I took those words away

Then you couldn't make things new
Just by saying I love you

Palavras (Titãs)
Marcelo Fromer / Sérgio Britto

Palavras não são más
Palavras não são quentes
Palavras são iguais
Sendo diferentes
Palavras não são frias
Palavras não são boas
Os números pra os dias
E os nomes pra as pessoas
Palavra eu preciso
Preciso com urgência
Palavras que se usem
em caso de emergência
Dizer o que se sente
Cumprir uma sentença
Palavras que se diz
Se diz e não se pensa
Palavras não têm cor
Palavras não têm culpa
Palavras de amor
Pra pedir desculpas
Palavras doentias
Páginas rasgadas
Palavras não se curam
Certas ou erradas
Palavras são sombras
As sombras viram jogos
Palavras pra brincar
Brinquedos quebram logo
Palavras pra esquecer
Versos que repito
Palavras pra dizer
De novo o que foi dito
Todas as folhas em branco
Todos os livros fechados
Tudo com todas as letras
Nada de novo debaixo do sol

O homem parecia ter desapontadamente perdido o sentido do que queria anotar. E hesitava, mordia a ponta do lápis como um lavrador embaraçado por ter que transformar o crescimento do trigo em algarismos. De novo revirou o lápis, duvidava e de novo duvidava, com um respeito inesperado pela palavra escrita. Parecia-lhe que aquilo que lançasse no papel ficaria definitivo, ele não teve o desplante de rabiscar a primeira palavra. Tinha a impressão defensiva de que, mal escrevesse a primeira, e seria tarde demais. Tão desleal era a potência da mais simples palavra sobre o mais vasto dos pensamentos. Na realidade o pensamento daquele homem era apenas vasto, o que não o tornava muito utilizável. No entanto parece que ele sentia uma curiosa repulsa em concretizá-lo, e até um pouco ofendido como se lhe fizessem proposta dúbia.

Clarice Lispector, in "A Maçã no Escuro"



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Um pouco de Lost

Obs.: Não há spoiller da quarta temporada!!!

A quarta temporada do seriado Lost estreou este mês nos Estados Unidos acabando com a longa vigília dos fãs ao redor do mundo. Aqui no Brasil só na pirataria mesmo conseguimos assistir. Lost volta com todos seus antigos mistérios, seu ar sombrio Um ponto divergente da série é a enorme carga de mistérios que assombram a ilha perdida e seus habitantes. A cada episódio nos deparamos com mais situações inexplicáveis e pouquíssimas respostas. Muitos dizem que os produtores estãooenrolando os espectadores pois perderam o fio da meada. Eu continuo assistindo e esperando que em 2010, no fim da série, tudo possa me ser esclarecido. Ainda é causa de divergências a relação de Lost a morte e os mortos. Não há como negar que em Lost a morte não é simplesmente o fim. Jack na primeira temporada constantemente via o pai, que já estava morto, na ilha. Eko também era muitas vezes recebido por seu irmão que também está morto. Para o mundo fora da ilha, todos os passageiros do avião também estão mortos. Muitos telespectadores querem que a série caminhe para explicações racionais e sólitas e reclamam se algo é explicado sobrenaturalmente. Vejo que essas pessoas se decepcionarão. A lógica seria que houvesse uma mistura de ciência com o sobrenatural. Nada de "estão todos mortos" ou "é tudo um sonho". Se isso acontecer eu é que me decepcionarei. Talvez a explicação esteja no Tempo, alguma distorção que crie situações fantásticas dentro da ilha. É só uma especulação. Acredito que os produtores já tenham um final previsto e podem ser mil coisas.
Algumas vezes entro em fóruns de discussão, mas são tantas especulações que fervem minha cabeça e eu desisto de especular com todos. Enquanto isso entro no Lostpédia pra relembrar os milhões de mistérios da ilha. São tantos que só com um banco de memória virtual pra lembrar de tudo.
Bem, não tenho muito pra falar de lost de forma geral. Talvez eu divague em outra oportunidade num tema mais específico...tenho antes que voltar a me acostumar com a série...

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Borges: a última epifania. (continuação)

Não importava quanto tempo Borges ficasse fora, no presente seria como se tivessem se passado apenas alguns minutos. Não se passarem cinco minutos e Borges já estava de volta. trazia uma expressão de quem já viu tudo o que o mundo tinha pra mostrar, inclusive o que não se queria nunca ter visto. As expressões humanas em Borges eram perfeitas e foram trabalhadas com todos os cuidados pelos cientistas. Sem nenhuma demora o robô já estava sendo interrogado:
- Em quantos locias esteve? - perguntou o chefe do grupo.
Com sua precisão mecânica Borges respondeu:
- Estive em vinte e cinco locais diferentes, em vinte e cinco épocas distintas.
- Onde esteve primeiro?
- China, dois mil e quinze.
Houve silêncio. Já prevendo a próxima questão, o robô continuou:
- A sociedade estava a caminho da destruição. Havia uma guerra mundial. A China era o alvo. A humanidade estava dividida em dois grupos. Os poderosos e ricos e os miseráveis.
- Não muito diferente de hoje - interrompeu um dos cientistas.
- Havia armas nucleares apontadas para vários pontos estratégicos, como Washington, Pequim e Amazônia. Resumindo. Não havia paz - concluiu Borges.
- Era de se esperar - continuou o cientista - não era em 2015 que eu esperaria encontrar um mundo longe da ruína. Continue, Borges, onde mais esteve?
Borges olhou para todos os homens alí presentes. Exitou, mas continuou.
- 1974. Brasil. A maioria da população vivia em extrema miséria, enquanto a outra parte preocupava-se em crescer economicamente, mesmo destruindo tudo o que estivesse em seus caminhos. O General Ernesto Geisel tomara posse da presidência do país que se encontrava em Ditadura. Não é diferente de hoje. A nomenclatura, no entanto, não é a mesma da nossa.
Borges continuou contando toda sua jornada aos cientistas. Estes estavam cada vez mais surpresos. Não havia vestígios de paz em nenhuma época. o robô contou de sua estadia em Jerusalém, onde acompanhou um Jesus Cristo, que era para os homens da época o filho de Deus, ou seja, o homem que traria a paz. Os cientistas perderam todas as esperanças após Borges narrar a crucificação do Cristo. Borges ainda contou dos deuses olímpicos e da Guerra de Tróia. Sua expressão era sempre impassível, robótica, alheio ao fato de ter narrado o fracasso da raça humana.
Haviam sido narradas 24 viagens. Faltava a derradeira, mas os cientistas tiveram medo. Era melhor não saber o pior do que comprovar a falência humana.
No mesmo dia todos os cientitas do projeto se reuniram para discutir o que seria feito daí em diante. A operação tinha sido um sucesso em sua parte estrutural, mas as notícias foram as piores possíveis. Após horas de discussão e todas as alternativas analisadas, chegaram a conclusão de o melhor a se fazer era destruir o robô e toda a informação contida nele e assim trabalhar com a humanidade em função do futuro e não mais do passado.
Borges entrou na sala de reuniões repentinamente.
- Não contei tudo, ainda falta a última viagem.
- Borges - iniciou um cientista - O corpo de pesquisadores decidiu em reunião que não vai ouvir sua última viagem. Estamos satisfeitos com seu trabalho. Temos então uma última missão para você. Pedimos que se autodestrua imediatamente.
Borges ficou imóvel. Sua face humana não impedia que transparecesse sua condição de escravo mecânico.
Antes de qualquer ação do robô, um cientista, visivelmente fora de suas condições normais, se aproximou do robô e gritou:
- Não, não faça isso. Não nos deixe loucos. Conte, Borges, qual foi sua última viagem?
A sala de reuniões ficou em silêncio. Nenhum cientista ousou retrucar. Esperavam que a primeira ordem prevalecesse e Borges então se destruiria. O Robô olhou para todos os presentes. Sua face mostrava uma expressão incrivelmente horrenda, nunca vista antes em nenhum ser humano.
- Estive na criação da humanidade - e a voz de Borges nunca parecera tão humana.
Seus olhos pareciam marejar, seu corpo de metal parecia retorcer. Continuou:
- Sois condenados. Desde a criação. Sois condenados.
E cinzas começaram a surgir onde antes havia o corpo do Robô, que não disse mais uma palavra. Logo, Borges era só pó.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Borges: a última epifania

Borges era um robô programado para realizar a mais importante das missões do início do século XXII: uma viagem ao passado. Objetivo: coletar dados de uma era perdida, onde a humanidade ainda vivia em paz. As guerras em massa, a TV, a globalização e todo o potencial capitalista atingiram um ponto em que não era mais possível pensar em futuro e especialistas faziam contas concretas para o fim da humanidade. Caberia a Borges, máquina criada por um grupo de cientistas que vivia clandestinamente em uma ilha do pacífico sul, resgatar o que a humanidade teve de bom no passado. Não seria possível enviar um homem. Os avanços científicos não permitem ainda que a matérias humana seja deslocada no tempo, pois também acarretaria o delocamento no espaço e a consequente dispersão do material humano em locais diferentes e o viajante sumiria, virando poeira em algum lugar no espaço. Borges no entanto era capaz de suportar a pressão espacial devido ao seu sólido material. O desafio: não há registros de quando houve paz no Planeta, então, não se sabe a que época Borges deve ir.


No ano de 2045 a comunidade dos países mais ricos do planeta, liderada por EUA e China entraram em um acordo após um ano de discussões que iria entrar para a história dos homens. E iria ser, inclusive, o primeiro registro da História da humanidade: a destruição de todos os documentos que contassem toda a tragetória da civilização, desde livros de história, teorias filosóficas até filmes, resvistas, romances e todo tipo de material artístico existente até então. Enfim, tudo o que pudesse conter informações de qualquer época no passado deveria ser queimado. Manuais técnicos, teorias matemáticas, químicas, físicas e biológicas seriam redatadas para 1 de janeiro de 2046, que foi convertido para ano 1 da Era da Luz e suas autorias atribuídas a autoridades contemporâneas da Comunidade Internacional. As escolas transmitiriam os conhecimentos exatos desses manuais além dos novos manuais de robótica, computação, eletrônica, mecânica e Biomédicina que seriam então indispensáveis à formação de todas as crianças de nível básico de ensino. Tal feito foi extendido a toda a civilização no exato ano de 2100, ou seja, ano 50 E.L. Apenas comunidades clandestinas escondidas pelo mundo ainda guardavam o conhecimento do mundo antigo e eram vastamente caçadas pela polícia Internacional. O aparente sucesso desse projeto escondia que se poderia chamar de fim da humanidade. As pessoas estavam cada vez mais escravas das autoridades, da TV, das guerras e dos robôs. Os robôs eram projetados para auxiliar nas guerras, não substituindo os soldados humanos, mas como auxílio tático. Outros tipos de robôs faziam as tarefas domésticas das famílias de classe média e todas as atividades burocráticas e de justiça, garantindo assim a justiça acima das pretensões pessoais, pois não as pessuiam. A não ser quando para isso eram programados. Só restara a humanidade o serviço militar, as novas artes e a programação de computadores e robôs. Um novo campo surgia: a astronáutica e toda uma série de empeendimentos afins, proporcionado pela primeira viagem tripulada à Lua e à Marte. Antes da queima dos documentos históricos foi desvendada a fraude da primeira viagem à Lua, realizada em meados do século XX, o que foi um dos motivos principais expostos para a queima: a sociedade mostrara-se ser uma fraude e então uma nova deveria surgir.


A serviço da humanidade e dos cientistas do Pacífico Sul, Borges realizaria a viagem ao passado, mesmo não sabendo em que passado iria encontrar uma civilização vivendo em paz e sem guerras. Era o ano de 2115 ou 65, como preferir, e a maioria dos cientistas do novo projeto viveram o fim da era cristã. Tinham fé que houve uma época harmônica entre os seres humanos com sí próprios e com a natureza. Borges era um robô que já vinha acoplado com sua própria máquina do tempo e ao comando humano poderia viajar à época desejada, podendo ser qualquer época no passado.


(continua...)





segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Nós, as criações, o divino...

o Gato de Cheshire adora aparecer em algumas noites do ano para me brindar com seu enorme sorriso no céu.
Bentinho vez em quando manda cartas me lembrando que não sou tão casmurro como imagino.
Policarpo Quaresma me lembra nos fins de semana que não devo sentar nas burocracias nem do meu jardim do quintal.

Os livros e os seres que os habitam parecem ser eternos em existência e contemporâneos em alertas que ora não fazem o menor sentido, ora parecem ser o sentido da vida. Viver sem a vida que brota de páginas, a vida que só existe pela mão do Deus-homem que tem todo o poder da criação parece ser viver sem a própria vida concreta materalizada nas funções práticas e sociais a que se envolve toda a humanidade cotidianamente. Não, não são os homens das dimensões advindas dos pensamentos do Eu-Deus a resposta e nem mesmo a essência do ser ou do estar ou do haver ou do ter. Os seres que ora personificam-se no papel, no simular dos atores, no falar dos contadores são a imagem e semelhança do criador, a infinitíssima unidade, o dedo que conduz e não conduz ao mesmo tempo, que dá a liberdade de transpor ou expor o que não se pode ou se tem medo ou vergonha de ser. Da inexistência material das personagens nasce sempre um novo eu, ciclo eterno, facilitador e dificultador da existência plena.

Ser um livro, ser uma história, ser o próprio Deus da história extrapola os limites da fixação do acontecido no sempre (trabalho da arte), mas também o próprio existir nos torna Deuses ou a união nos torna um só Deus complementado.

Seremos nós o Deus? teremos o pudor de não nos reconhecermos e personificarmos no outro - o intocável, inatingível, insuperável - a nossa própria plena existência enquanto o ponto mais alto do poder da criação do mundo? O homem criou Deus a sua imagem e semelhança.

E agora a criação superou o Criador. Édipo, Odisseu, Hamlet, Holmes, Brás Cubas, Dom Quixote serão maiores que seus Deuses, os "Deus ex machina"? Criações que após estarem a mercê de suas máquinas criadoras tomaram seus lugares e agora existem por sí só onde mais ninguém tem o poder de destruí-los, eternizaram-se. Somos/seremos ao mesmo tempo nós, Deus e nossa criação? A trindade que em incontáveis trindades formam tudo o que existe, seja no mundo físico, ou no metafísico seja no ideal ou no metaideal...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Algumas coisas quando o novo dia chega mas ainda está escuro

Canteiros
Fagner / sobre poema de Cecília Meireles

Quando penso em você
Fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa
Menos a felicidade

Correm os meus dedos longos
Em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego
Já me dá contentamento

Pode ser até manhã
Cedo, claro, feito o dia
Mas nada do que me dizem
me faz sentir alegria

Eu só queria ter do mato
Um gosto de framboesa
Pra correr entre os canteiros
E esconder minha tristeza

E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza...
Deixemos de coisa, cuidemos da vida
Senão chega a morte
Ou coisa parecida
E nos arrasta moço
Sem ter visto a vida

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
São as águas de março fechando o verão
É promessa de vida em nosso coração.


Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Álvaro de Campos

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha (Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
E' estar ao lado da escala social,
E' não ser adaptável às normas da vida,
'As normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lagrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-se com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior a ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
E' ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
E' ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida!
Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lagrimas (autenticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha olhos tristes por profissão

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei.
Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!

Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Reminiscências



Baixei na internet hoje uma seleção de clássicos do funk do Rio de Janeiro. Pude reouvir uma série de sucessos como o Rap do Silva, o Rap da Felicidade, Bonde da Cdd, Estrada da Posse, entre outras canções que eu odiava no passado. Mas as ouvindo hoje até achei muito legal.

Penso que nós costumamos achar melhores as coisas que aconteceram no passado quando fazemos a comparação com o atual. Daí a velha expressão "na minha época...". Pelo menos comigo é sempre assim: no ginásio eu achava melhor o tempo do primário; no ensino médio eu achava bem melhor minha vida de moleque. Na época do Pré vestibular eu queria porque queria voltar ao segundo grau. Na faculdade eu pensava sempre em voltar um ano pra refazer o pré. E na própria faculdade eu acabo sempre achando melhor as épocas que já passaram. No final a gente sempre descobre: todas as épocas foram de certa forma importantes e indispensáveis em nossa vida, em nossa formação. Mesmo épocas difíceis são depois lembradas com o louvor de quem conseguiu passar por ela e continua aí, firme e forte. Não quero transformar isso em aut-ajuda, então, voltemos às reminiscências.





Além do cd "clássicos do funk", há pouco tempo baixei um emulador de Super Nintendo e fico horas me divertindo com Super Star Soccer Deluxe, Super Bomberman, Mário Kart, Mega Man, Top Gear, entre outros. Baixei uns joguinhos de Atari também e quase chorei com Space Invaders e Asteroids. Fico imaginando a parte do nosso cérebro que se responsabiliza pela memória...ela tem um trabalho e tanto. Imagina um senhor de 90 anos que consegue contar com precisão histórias da sua infância difícil na roça?


Se tivéssemos uma máquina desmemorizadora acho que ela seria a mais poderosa do mundo. Em Olympia (pra variar) há essa máquina, que é usada por pessoas que já viveram muito tempo (ah sim, em Olympia as pessoas são eternas até o momento que queiram morrer). É retirada a parte da memória que se deseja, a não ser quando é usada terroristamente. E se houvesse isso na Terra (há em Heroes ( pra variar[2])) com certeza seria usada para fins terroristas. Em Heroes, o Haitiano é a máquina humana que tem poder de desmemoriar as pessoas. Estas, ao se depararem com o fato de perder a memória de tudo de bom que aconteceu em sua vida, de não se lembrar se é casado, quem são seus pais, quando foi o primeiro beijo, acabam por passar qualquer informação. É pior que jogar baratas vivas goela abaixo ou arranhar com gilete e tacar álcool. Espero não perder a memória por causas naturais também. Alzaimer nos ronda... Às vezes até assopra aqui na minha cabeça.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Sobre o Tempo, pra variar





Ainda estou lendo o romance Olympia, do Fausto Wolff, e adimito que estou achando tudo muito complexo. Essa história de mexer com o tempo está muito além do que consigo pensar. Tentem pensar no tempo sem espaço ou vice versa: é mais ou menos isso, um tanto inviável se você não estiver super concentrado e não for um filósofo grego da antiguidade que não tinha que se preocupar com a vida frenética contemporânea. Não sei muito bem sobre o que pretendo escrever. Esse livro está me deixando confuso, merecerá um estudo posteriormente, se eu conseguir. Bem, não sei se estou ficando louco ou se encontrei alguns erros esquisitos no livro, como umas trocas repentinas da pessoa da narração, de terceira pra primeira do singular, de uma forma um tanto ilógica. Ou ainda uma certa hora em que tenho a impressão que Wolff usou o nome do personagem trocado. Talvez eu esteja ficando louco.




Isso é o que dá uma história dividida em duas: a primeira em algum lugar em algum tempo, onde o tempo é bem esquisito, os tempos verbais são bem confusos por isso e a realidade é um misto da humana com algo extraordinário. Coisas insólitas acontecem, sujeitos esquisitos com nomes e apelidos...normais. Barroso, Marileusa, tesourinha. Gente invisível, planetas habitados por vozes, avanço e retrocesso no tempo como se adiantassem e atrasassem um relógio despertador.




A outra história se passa, olha só, no Brasil, em algumas décadas do século XX. Na Lapa, ó, pra ser mais exato. A narrativa centra em um grupo de amigos entre jornalistas e não-sei o-quês bem boêmios. Aparentemente essa parte é como um calmante,p ois se assemelha a narrativas comuns de escritores brasileiros atuais. Mas sei lá, tudo é tão estranho que eu estou ficando com medo do que possa acontecer.




Deixando isso de lado, assisti a um filme de ficção científica esse fim de semana. Chama-se O Som do Trovão. Em dois mil e alguma coisa é possível realizar viagem no tempo. Uma empresa faz turismo para a época dos dinossauros para ricaços que não têm o que fazer da vida. A aventura consiste em voltar 65 milhões de anos com uma equipe treinada e caçar dinossauros, matá-los e voltar ao presente. Mas, tharam!! algo acontece de errado - algo que certamente não falarei aqui - e a equipe tem que resolver o problema antes que nós - raça humana - e o planeta Terra deixemos de existir ou passemos a existir de forma bizarra.




Lendo Olympia e Assistindo a esse filme, não pude deixar de pensar nesse tal de "voltar no tempo". Algo tão cobiçado na ficção científica como era outrora cobiçada a viagem à lua, ou ao fundo do mar, ou qualquer outro tema do Verne, do Asimov ou de outros escritores. Será no fututo possível realmente voltar no tempo? podemos sentir o gostinho da volta ao passado observando a lua e as estrelas. Algumas estrelas são tão distantes que o brilho que vemos hoje pode ter sido emanado por ela há dez, cem ou milhares de anos. Elas podem inclusive já ter morrido, mas nós ainda vemos sua luz. Com o sol é um pouco diferente. A luz que ele emana demora oito minutos pra chegar na terra, portanto se ele apagar (como acontece em Sunshine - Alerta solar, outro filme que assisti no fim de semana) logo logo saberemos. Bem, não pretendo divagar sobre a ciência e os estudos sobre volta no tempo. O que me interessa é analisar a recorrência da temática na ficção. O seriado Heroes também o traz. O personagem Hiro é capaz de parar o tempo e vagar por ele entre os tempos e espaços. Acaba o coitado indo parar no século XVII, no Japão. Ele também faz essas viagens para, pâpâpâ, salvar o mundo. Só que ele é muito trapalhão. Enfim.




O homem tem esse desejo de voltar no tempo para consertar o que fez de errado no passado. Quem nunca teve essa vontade? Quem nunca fechou os olhos e pediu imensamente pra quando abrí-los ter voltado no tempo um ano, um minuto? Quem, em um momento epifânico achou que descobriu toda a verdade do mundo e quis voltar lá no início pra comprovar sua teoria totalmente lúcida?? Bem, enquanto a ciência não descobre um jeito de fazer com que voltemos no tempo ou com que esse se distorça ou inventar algo tão rápido, mas tão rápido que faça o tempo voltar, nós, simples humanos ficaremos criando literatura e filosofia pra tão bela experiência que seria se fosse possível fazer tal viagem.




Só mais uma coisa. Imaginem um rato que devora um gato morto em um minuto. Seis ratos o devorariam em 10 segundos. Sessenta ratos o devorariam em 1 segundo. Seissentos ratos, portanto, de maneira muito lógica, fariam o tempo voltar. Olha, é tão simples, viram!!!


Nem precisamos de máquinas como em De volta para o Futuro.




Me surgiu a idéia de escrever artigos sobre sci-phi. Lendo Asimov, o criador de Eu, Robô e O Homem bicentenário, simpatizei tanto com o assunto. Mas como não entendi nem a Olympia de Wolff, acho que vou ficar só divagando aqui no blog, pra desencanar disso.


domingo, 9 de dezembro de 2007

O cone de Trânsito Gigante

Hoje ou ontem foi a inauguração do mais novo Cone Gigante de Trânsito de São Gonçalo, com direito a filhote e tudo... É o início, segundo intelectuais, da nova tendência da pop art no Rio, a Goliat ars.
- Dois meses atrás esse cone teria ganho o concurso das sete maravilhas de São Gonçalo, disse um observador empolgado.

Pessoas mais influentes e patrocinadores do projeto (entre eles a Coca Cola) esbravejam aos cinco cantos que na verdade essa é uma campanha contra o não respeito aos cones, protagonizado pelos aspirantes a motorista nas auto-escolas, pelos perna-de-pau nos treinos físicos das escolinhas de Futebol da cidade e pelos motoristas, frente ao caos implantado pelas reformas das praças e meio-fios da cidade.

Outros, menos empolgados, dizem que se parece um pouquinho com uma árvore de natal. Loucos...

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Credibility gap

Começou a geração do desencanto. Talvez eu esteja um tanto atrasado em minha afirmação, mas se por um lado já fazem mais de trinta anos que John Lennon disse "the dream is over" e pra mais tempo já foi constatado que Marx e Deus estão mortos, por outro lado a minha juventude e meus contemporâneos vivem intensamente as considerações da modernidade e precisamos de novos subsídios para reafirmarmos os neodesencantos do mundo. Já se foram as ditaduras no Brasil, já não há mais encanto em se cantar as músicas políticas, o cálice de Buarque ou a sua proteção do Plebe Rude. Também não cabe mais o no-future punk setentista, alheio a qualquer coisa. O neodesencanto está além das propostas nilistas, está além da constatação de que não me sinto muito bem e está além, inclusive das teorias de que acabou o mundo e isto aqui é o que sobrou dele*. O neodesencanto pode ser também um certo desejo de gastar os restos de existência que sobraram após o fim de tudo. Não vamos nos casar e ter filhos, não vamos ter água à vontade, não vamos conseguir mais respirar, não teremos árvores, o mundo vai inundar e a música, meu Deus, vai acabar. Como vamos nos salvar? Não vamos, obviamente, nos salvar enquanto matéria, não nos iludamos. A era do desencanto é a era do outro, mas do outro imaterial, cibernético, a maior manifestação da inexistência. Nada será mais palpável, tudo serão códigos, bytes, ópticos. O mundo não será mais medido em kilômetros, mas sim em kilobites e o tempo será download apenas. Revoluções não mais, não vamos caminhar e cantar, não haverá nada pra agradecer e não levantaremos nossas mãos para o céu. Não vamos cantar as menininhas, não vamos à guerra, não vamos ao menos ter novas gerações. Iremos aos novos planetas descobertos? Gliese, ou qualquer outra matéria com um chão e um mar? Iremos retornar à Olympia do Fausto Wolff ou vamos ao paralelo matrix? Ainda há a opção de Waterworld ou pior...nada vai acontecer...e esse é o pior que poderá acontecer, convenhamos. Seremos condenados à vida eterna sobre o solo terrestre e ver as destruições cotidianas, as tragédias cada vez mais insossas, mesmo catastróficas. A menina conspurcada, os milhões soterrados, a fatura do banco, os vírus de computador. É, não seremos condenados a isso...já estamos condenados a isso e ao menos que Adão e Eva não comam a maçã (sim, há uma esperança: inventarmos a máquina do tempo, irmos ao Éden e impedirmos Eva de comer a tal maçã - mas tenho certeza que a pessoa que fizer a viagem vai arrumar um jeitinho por fora de trazer algum produto do paraíso ou então vai querer tirar uma lasca da Eva, mas tudo premeditado, pois fará parte do contrato, aquele contrato por trás dos panos com o patrocinador). Enfim, não há mais o que esperar. Acreditar...nem ao menos no que vejo, essas ilusões de ótica, essa semvergonhice, como diria Clarice.
Vamos então viver os restos até que eles simplesmente acabem.
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* Créditos à Ingrid, bla bla bla.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

O letreiro

Há um letreiro piscando:
Aqui!
Aqui!

E há uma luminosidade em mim.

Mas não sei muito bem onde me
procurar.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Ah, tempo

Iniciando, vou tentar explicar um pouco do porque de Interditos e Transgressões ser o nome do blog. Sucintamente, interdito é aquilo que não se deve fazer, seja por motivos morais, éticos, pessoais, profissionais, ou qualquer motivo que peça uma certa discrição, polimento. Está no nível do consciente de Freud. A transgressão é aquilo que se faz apesar da interdição. O inconsciente. Os interditos só são bons depois que são transgredidos. A contemporaneidade é o emaranhado de interditos e transgressões simultâneos, inconstantes, repentinos, mas comuns em suas surpresenças... e que contemporaneidade claustrofóbica a que vivemos, sempre negando o então utópico futuro. A contemporaneidade é hoje, é tempo que não existe, é frenesi, é foi. Interditos são efêmeros, pois não existem senão pra serem transgredidos. As transgressões são efêmeras, pois são oprimidas por novos interditos recheados de moral e bons costumes.
Escrever é a transgressão que me cabe. E também o interdito. Barthes já diria que a língua é fascista. Apesar da liberdade que tenho em escrever o que bem quero, há meu consciente fascista, que me impede, pelos seus motivos morais, transpor tudo o que seria então imaginado ao nível de literatura - a liberdade. Mas não escrevo literatura, seja lá o que ela for. Escrevo simplesmente. Lêem-me ou não, não importa. A liberdade não está no outro. No outro está a opressão, inclusive quando assumo (um eu universal) o papel do outro. Argumentos são os próprios interditos e transgressões, pois repletos de parcialidade, contemplam o eu liberto e o outro opressor. Uma simples exemplificação desfaz um argumento completo. É o papel do interdito que varre em simplórios sussuros toda a iconoclastia transgressora. A transgressão é um blefe, a ideal farsa da felicidade...ela é jovem e revolucionária, é a própria existência com fim premeditado...é o que nasce já segurando a certidão de óbito. Os interditos são caixões pregados. Ressurreição é a transgressão que os povos em fé buscam na esperança eterna. A transgressão é o antes e o depois.
Mas a contemporaneidade...ah, tempo.

sábado, 3 de novembro de 2007

Em busca do prazer

Segundo a meteorologia e o senso comum, estamos oficialmente na estação das flores e, teoricamente, o meu jardim deveria estar bem florido e colorido. Não sei se pelo desconcerto do mundo, se pelo calor desproporcional ou pelo meu descuido mesmo, as únicas flores que existem em meus jardins são as poéticas flores astrais. Literalmente só vermes passeiam por lá, como na lua cheia. Contrariamente ao que acham milhões de brasileiros praianos, esse calor está desanimador para mim.

Estou aqui no banheiro, as duas da tarde, sentado no box embaixo do chuveiro ligado, sem vontade nenhuma de me levantar durante as próximas quatro horas. A água cai infinitamente em mim, molha meu corpo cheirando a cerveja, passeia pela minha pele e escoa pelo ralo rumo ao sub-mundo. A princípio esse ciclo me dá um certo prazer, mas agora estou me sentindo um tanto enojado com meu próprio corpo. Abro a boca e sugo um pouco de água que cai, mas esta se torna amarga a medida que se encontra com minha língua, uma mistura com os restos da noite anterior. Cuspo-a no ralo e fitando-o sinto ainda mais nojo. Não do ralo que me parece mais limpo que eu, mas nojo de minha alma que parece escorrer com a água. Ou talvez seja só o que restou dela, perdida ontem pelos bueiros das ruas, com uma messalina qualquer. Começo a rir por ter pensado em messalinas ao invés de putas. Como se eu, no estado em que estou, pudesse me dar ao luxo de polimentos. Após me acabar nos prazeres dos piores buracos da cidade, sou digno dos mais baixos palavrões...e eu mesmo me xingo. Rio mais da possibilidade de ter chegado em casa por esse ralo que vejo agora. É mais lógico que pensar que consegui chegar em casa andando, ter aberto a porta, trancado, entrado no banheiro e ligado o chuveiro...esforço demais, coisa que eu não estava em condições de fazer.

A busca pelo prazer...algo tão efêmero... O pior é que eu nem ao menos me lembro o que sinto quando o sinto. Nem essa água batendo em mim está fazendo efeito. Parece mais uma chuva de pedras me atingindo. E até que eu mereceria, fosse o caso. Me vem na boca, repentinamente, um gosto sutil de abacaxi, provavelmente de um dos incontáveis drinks da noite passada. Lembrei-me de quanto gosto de abacaxi. Lembrei-me também que aqui no bairro tem um caminhão que vende abacaxi. Vou comprar um.

Enxugar-me, vestir-me, pentear os cabelos, escovar os dentes, achar a chave da porta (entrara mesmo eu pelo ralo?) não foram tarefas fáceis de cumprir. Saindo pela porta encara-me um sol imponente, cegando meus olhos e fazendo o favor de me lembrar que uso óculos. Uns mnutos depois de me recuperar resolvo finalmente sair. Minha cara deve estar horrível, penso. As pessoas da rua me encaram, no entanto com certa naturalidade. Provavelmente não me viram chegando ao raiar do sol – o que me faz reforçar a tese do ralo. Encará-los não é uma coisa que me agrade. Houvesse um caminho alternativo pra chegar ao abacaxi, eu o pegaria. Nunca me pareceu tão longa a caminhada, estou bastante dolorido. Doem-me as coxas, o couro cabeludo, os ombros, a virilha e as regiões próximas a ela. Jesus Cristo carregando a cruz não sofrera tanto em seu percurso.

Chego ao caminhão de abacaxi e respiro fundo para sentir seu cheiro catártico. Me regenero. Encantado, passo uns dez minutos olhando os frutos expostos. Observo todos. Escolho os mais cheirosos, os mais jeitosos. Volto para casa com o sol no rosto. Incrivelmente, do ponto onde estou é possível ver o Cristo Redentor, mesmo a quilômetros de distância dele. A majestade do corcovado me enche de prazer. O suor escorrendo é como água de uma fonte em minha face e as pontadas da coroa do abacaxi em minhas pernas parece um tratamento massoterapêutico. Passo na rua, cumprimento todos que vejo, eles me perguntam sobre o dia. Excelente, respondo, retribuindo a pergunta.

Em casa, pego a faca e começo a descascar delicadamente o abacaxi. Sai dele um líguido gelado que escorre por meus dedos. Sugo o líguido. Fatio o fruto, de aparência tão doce. Pego uma rodela e suavemente sugo todo o suco que dela sai. Dou uma mordida voraz, quase selvagem no pedaço. Isso me causou um imenso prazer, qual nunca sentira na vida, como se fosse esse o derradeiro prazer da minha vida. Era como se todas as pessoas desse mundo estivessem me oferecendo seus labios, todos feitos de abacaxi. E, noite passada, eram todos realmente abacaxis.

domingo, 14 de outubro de 2007

A arte milenar de jogar o lixo fora

Clássico domingo, início de noite, o dia todo em casa. É quase impossível fugir da honorável tarefa de pôr o lixo na cesta da rua. Desde as tirinhas do Hagar até os seriados americanos, passando pela vida real, quem nunca jogou o lixo fora? Tal atividade nunca é feita de pura e expontânea vontade, é preciso sempre que alguém mande fazer, com o ar autoritário de quem já juntou o lixo todo em sacolas epensando: agora faça a sua parte. E a pessoa vai lá, largando o interessantíssimo programa de tv que estava assistindo ou o minuto mais emocionante da partida que estava ouvindo no rádio, e vai lá, levar o lixo à rua.


Pego a alça da sacola com cuidado para não encher a mão de formiga, prendo a respiração por causa dos alimentos vencidos, coloco a chinela, reparo que estou com um short rasgado, vejo se não esqueci nenhum saco e então pronto para ir. Já estou com a roupa que irei dormir e então, já na rua, me dou conta que meus cabelos estão totalmente despenteados. Torço para que não passe ninguém na hora e me veja como só me apresento na intimidade do lar. Tenho que ir pro outro lado da rua, pois lá é que fica a cesta. Tem um gato, poderia ser um mendigo, mas um gato esfarrapado rasga uma sacola que já estava lá há algum tempo. Espanto o bichano que sai agarrando um pote vazio de sardinha. Não recolho o lixo que ele espalhou. Coloco alí o monte de sacolas novas, fazendo transbordar a cesta. Sei que o gato vai voltar, pode ser um mendigo, mas prefiro pensar que seja de novo o gato. Não sei por que motivo dou uma cheirada na minha mão e tusso com o fedor. retiro as formigas do me braço, olho a noite azulada, sem nuvens, todo o infinito do céu e penso no lixo que jogo fora. Faço um link com uma reportagem que li sobre projetos para se jogar o lixo no espaço, para não afetar mais a terra. Que idéia absurda. Em pleno século XXI esse lixo poderia ser reaproveitado em muitas coisas...tudo pode ser reaproveitado em alguma coisa...até o gato tem consciência disso. Transformação, é essa a lei que deveria regir o mundo humano, assim como já faz a natureza.


Penso que não sou um gato e que tenho mais com o que me preocupar. Vou entrando logo em casa antes que alguém passe e me veja descabelado e de chinelas.

Poderia ser ela, mas era eu de short, chinelas e descabelado...